Além da Tradução
A saga do galego
A saga do galego
Deixou a sua terra
deixou o seu mundo
e foi lutar contra os mouros.
Deixou as verdes montanhas
deixou os rios cristalinos
e foi lutar contra os mouros.
Deixou o seu povo
deixou a sua gente
e foi lutar contra os mouros.
Deixou o alimento farto
deixou o bom vinho
e foi lutar contra os mouros.
Perdeu pais, perdeu filhos
perdeu irmãos e perdeu amigos,
pois, estava lutando contra os mouros.
Perdeu a sua roupa, perdeu a sua gaita
perdeu os seus hábitos e perdeu a sua língua, pois, estava lutando contra os mouros.
Fez órfãos, fez viúvas,
fez dor e fez cair lágrimas,
pois, estava lutando contra os mouros.
Aonde estás hoje, galego,
longe da tua terra,
longe do teu mundo,
longe das verdes montanhas,
longe dos rios cristalinos,
longe do teu povo,
longe da tua gente,
longe do alimento farto,
longe do bom vinho,
sem a sua roupa,
sem a sua gaita,
sem os seus hábitos,
sem a sua língua,
pois, já não tens mais mouros com quem lutar?
Dia de Festa.
Dia de Festa
Do outro lado da rua
no portal iluminado
tem um pinheiro enfeitado
com bolinhas coloridas.
Falou-me o meu amigo
que foi quando nasceu Jesus
aquele que morreu na cruz
pra todos do mundo salvar.
Deste meu lado da rua
no caixilho da janela
minha Hanukiah vela
com nove luzes acesas.
E conto pro meu amigo
que elas falam da espera
dessa linda nova era
que HaMashiah nos trará.
E daí fico pensando
que estamos nós esperando
o mesmo Messias chegar…
© Dalva Agne Lynch
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Círculo
Círculo
Pertenço aqui, no tosco círculo riscado na realidade do chão
Sob esparsas luzes de estrelas, de velas, de fogueiras
A luz da Lua, seu rosto iluminado e iluminante
As luzes dos olhos dos que me cercam, roupas ao vento
Refletindo estrelas como imensidão de abismos.
Com eles levanto as mãos ao orvalho, ao sereno, à chuva
Acolho o vendaval e o sol nascente com o mesmo amor
Como a mulher que sou, e que recebe de seu homem
Tanto a alegria quanto o tormento, sabendo que ambos
São parte apenas de uma realidade maior, além do homem
E que o poder do amor que nasce em mim é meu
Não dele. Penetro assim no círculo como quem chega em casa.
Como quem abre a porta para sentir um cheiro conhecido
Deixando fora o mundo da certeza dos jovens conceituosos
Dos velhos desiludidos a buscar consolo na garrafa
De mulheres cansadas que desconhecem que são belas.
Penetro no som, na dança, na bruma, no fogo, no frio
No poder da Terra, de onde saem todos os viventes
E aonde todos eles retornam – alguns assim, em canto
Outros apenas quando todas as suas realidades se apagam -
A realidade da certeza, da garrafa, da desilusão -
E a Terra afinal os recebe, última pousada, útero e cova.
Estes dormem sem que descubram a grandeza da liberdade
O poder intenso e imanente de conhecer e conhecer-se
De sentir-se filho e amante, mãe e consorte, livre e interligado.
Quanto a mim – escolho o círculo da realidade do chão
O canto do vendaval e do sol nascente
O canto da alegria e do tormento.
Eu sou semente, árvore, fruto.
Sou mulher, o tosco círculo
riscado na realidade do chão.
© Dalva Agne Lynch
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Filha da Magia
Filha da Magia
(do livro Às Portas da Noite, 2001)
Como tu
também eu renasci de mim mesma
ao toque misterioso e sublime
de mãos etéreas, ao som do canto
dos sons cadenciados da Magia
da fumaça e do sangue
se me escorrendo pela cara
manchando-me as vestes
e o ódio inútil se dissipando
fumaça
ao vento do meu amor
alçando asas rotas
exangues
no tormento do meu amor
destroçando-se
silencioso
no grito do meu amor
e as mãos etéreas me trazendo
à vida, em parto agonizante
eu, deusa suja de sangue
filha da Magia
e meu amor.
© Dalva Agne Lynch
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TEACHING
Em homenagem ao professor que, nos dias sombrios de hoje, tem que ser um Dom Quixote em luta contra moinhos de vento, escrevi este poema num momento especial em que fazia um curso de especialização para professores de lingua inglesa. É claro que ele foi escrito no idioma que é minha segunda língua, mas pela qual consigo expressar sentimentos e emoções com sensibilidade.
TEACHING
Teaching is to plant
Seeds of light
Into the dark soil of mind
Harsh wind digging
The farmed ground
Anxious for knowledge.
And there in the narrow space
Fruits of wisdom come up
Reflecting the shinning web
What we are made of:
A learning being.
By Célia Maria L. Viana / 2002
Nas brumas de mim
Nas brumas de mim
Acalanta-me
nas brumas de mim!
Faze nascer o dia das pequenas horas
a antemanhã das ondas que me afogam
o despertar do sol
dos vagalhões que me silenciam!
Ah, aproxima-te!
Preciso de mãos que não as minhas
para fazer poemas.
Aproxima-te com um soneto
uma redondilha
declama em voz alta ao pé de mim
na hora do silêncio maior.
Até que se me voltem as palavras
e se me voltem belas
e outra vez desperte o canto
ao nascer do sol!
Ah, Poeta
peço-te
acalanta-me
nas brumas de mim!
ENGLISH VERSION
In the deep mists of myself
Soothe me
in the deep mists
of myself.
Bring forth the day
from the small hours
the dawn
from the drowning waves
the sunrise
from the howling billows!
Oh please come near!
I need hands other than mine
to make a poem.
Come near with sonnets
with roundels
recite them to me
in the silent hours
til my words come back in beauty
and my song returns
with the rising sun!
Oh my Poet
I beseech you
please soothe me
softly
in the deep mists
of myself!
Dalva Agne Lynch
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