Ventania
“Consumido pelas lembranças ainda mornas, o olhar fixo ouvia o bater das janelas, os galhos de árvore inquietos e a constante ameaça de chuva. Já não sabia se o temporal era interno ou se realmente havia uma ventania lá fora. Deveria, ao menos, fechar a janela ao seu lado. E se, de fato, chovesse? Mas já estava encharcado por lágrimas…
Precisava ser forte o suficiente para enfrentar a ida ao cemitério, ver o corpo pálido de sua querida e eterna companheira e, ainda, suportar as lágrimas tão sem sentimento que, por outros rostos, escorreriam.
Quis ficar. De que adiantava ir ao enterro, se não poderia lhe segurar a mão ou ter a escuridão de sua alma iluminada por um sorriso? No entanto, talvez não fosse suficientemente corajoso para deixar aquele corpo ir, sem lhe esboçar um último adeus sincero.
A todo o momento, ainda enxergava sua amada de pé, sentada, ou deitada; sempre ao seu lado. Contudo, o que via não era a presença, mas a lembrança que o sentimento de saudade trazia de volta. A ausência que sua amada deixara trouxe a ventania vazia, cheia de tristeza, que apagara a vida de seu corpo.”
Autora: Priscilla Yumiko Fujikawa
Fonte: Escapismo Inconstante

